Qual é a minha prática?
A verdade da vida não é uma meta a alcançar num determinado momento no futuro; é a realidade do passo dado neste preciso instante. Pensar na realidade como uma linha reta, uma progressão linear do princípio ao fim, de causa a efeito, da ideia à realização, é um erro. A realidade é um círculo infinito, e cada ponto da sua circunferência é ao mesmo tempo o centro, o ponto de partida, e o ponto de chegada. (Hogen Yamahata, On the Open Way)
Nos encontros face a face com um professor zen, apresentamo-nos dizendo o nome e o que praticamos, e sempre achei essa forma de apresentação muito poderosa. “Chamo-me Margarida e a minha prática é…” e posso seguir uma narrativa conhecida, dizer o que é expetável e conforme, mas também posso parar e refletir sobre qual é autenticamente a minha prática. Qual é a minha prática? é em si um koan, um questionar incisivo e necessário.
Um dia fizeram-me essa pergunta, de uma forma ligeiramente diferente, “o que é para ti a meditação?” e depois de uma pausa a resposta que surgiu foi “uma intimidade com o momento”. Podemos fazer-nos estas perguntas várias vezes e talvez obter respostas diferentes. Parar e questionar como se fosse a primeira vez é abrir-se a um campo de possibilidades e de autenticidade. Elizabeth Mattis-Namgyel em “O Poder de uma Pergunta Aberta” fala da energia criativa que se apresenta a qualquer momento da nossa experiência. E o que acontece se nos habituarmos a estar abertos? Podemos ficar no limiar da pergunta como à beira de um abismo… ou podemos confiar e soltar. Recordo especialmente a suavidade e humildade de Ajahn Nyanarato, do mosteiro Amaravati, como um exemplo desta prática de estar no presente, de escutar como se fosse a primeira vez e de responder a partir dessa presença.
