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Cortando as raízes do descontentamento – O método budista

Por B. Alan Wallace Tradução de Jeanne Pilli na Revista Bodisatva

B. Alan Wallace fala sobre como os kleshas ou ” afligidores mentais” nos impedem de perceber a verdadeira natureza de nossa mente, e como podemos começar a chegar à raiz do descontentamento reconhecendo os kleshas pelo que são.

Tenho notado com certa preocupação a frequência com que o termo sânscrito budista klesha tem sido mal traduzido como “emoção aflitiva”, “emoção negativa” ou “emoção perturbadora”, ou até mesmo como “paixão”. Psicologicamente, as emoções são definidas como reações mentais conscientes (como raiva, medo ou tristeza) experienciadas subjetivamente como sentimentos fortes, geralmente dirigidos a um objeto ou evento específico e normalmente acompanhados por mudanças corporais  fisiológicas e comportamentais. A “paixão” é psicologicamente definida como uma forte inclinação para uma atividade que as pessoas gostam (ou até mesmo adoram), consideram importante, na qual investem tempo e energia, e que faz parte de sua identidade. De fato, a paixão pode alimentar motivações virtuosas, aumentar o bem-estar e dar sentido à vida cotidiana. Portanto, no uso contemporâneo, as paixões não são necessariamente prejudiciais, enquanto os kleshas sempre são.

Por outro lado, os termos “emoção” e “paixão” não abrangem toda a gama de kleshas. Esses erros de tradução não são apenas erros acadêmicos, que podem ter poucas consequências práticas. Pelo contrário, se o nosso entendimento de kleshas – que, de acordo com o budismo, são as causas fundamentais de todo sofrimento – estiver limitado a “emoções perturbadoras”, então, se sentirmos que não estamos experenciando nenhuma emoção aflitiva, poderemos concluir que estamos livres de kleshas. Mas nada poderia estar mais distante da verdade. Além disso, alguns tipos de kleshas, como a luxúria, a ganância e a arrogância, podem até parecer agradáveis, mas seu impacto em nossa mente, conduta e bem-estar é prejudicial. Portanto, todas as traduções de kleshas como emoções obscurecem o significado mais amplo e profundo de klesha. A tradução mais precisa desse termo é “aflição mental” ou, ainda mais precisamente, “afligidor mental”.

Sob a influência de nossas aflições mentais, mesmo quando buscamos nos livrar do sofrimento, somos movidos por desejos dirigidos ao mundo externo para escapar do que erroneamente consideramos as causas fundamentais da infelicidade em nossos corpos, relações sociais e ambiente.

Na análise budista de dukkha, um termo sânscrito que se refere a todo o espectro de dor e sofrimento, suas raízes fundamentais são identificadas como karma e klesha. O primeiro desses termos é traduzido literalmente como “ação”, mas se refere especificamente aos tipos de ações do corpo, da fala e da mente que são provocadas pelos kleshas, que são considerados as causas fundamentais de todas as formas de dukkha. Portanto, na visão budista, as raízes de todo o nosso descontentamento são os kleshas. Uma definição amplamente aceita de “klesha” na psicologia budista é “processos mentais que têm o efeito de perturbar o equilíbrio da mente”. Ao fazer isso, eles obscurecem e distorcem nossa visão de nós mesmos, dos outros e do mundo como um todo. Portanto, os kleshas são assim chamados porque prejudicam ou afligem a paz natural da mente, causando todos os tipos de desequilíbrios e angústias psicológicas que levam a um comportamento prejudicial ou antiético. As aflições físicas, incluindo doenças e lesões, causam sofrimento no corpo, enquanto as aflições mentais resultam em sofrimento mental, seja direta ou indiretamente (por meio das ações que elas nos incitam a realizar).

Todos os seres sencientes compartilham uma mesma característica: todos nós desejamos estar livres da dor e do sofrimento. No entanto, como seres humanos, possuímos uma qualidade distinta que supera a de todas as outras espécies, que é a nossa inteligência, que nos permite buscar as verdadeiras causas do sofrimento, em vez de simplesmente reagir ao próprio sofrimento. Concentrando-nos primeiramente na realidade da dor física, sabemos que há muitas causas externas em nosso ambiente, bem como causas internas em nosso corpo que causam dor, e temos muitos métodos para lidar com elas. Mas, ao final, todos nós estamos sujeitos ao envelhecimento, à doença e à morte; portanto, enquanto estivermos encarnados, os diferentes graus de sofrimento físico são inevitáveis.

As causas internas e externas do sofrimento mental são mais sutis e mais difíceis de identificar. Muitas condições externas em nosso ambiente, nossas interações sociais e nossa saúde física podem levar ao sofrimento mental. No entanto, sabemos que nem todas as pessoas reagem emocionalmente da mesma forma às mesmas influências físicas e, de fato, podemos sentir angústia mental mesmo quando não conseguimos associá-la a nada em nosso ambiente físico ou em nosso corpo. Se usarmos o termo “descontentamento” como um termo guarda-chuva para toda a gama de sofrimento mental, desde um leve mal-estar até uma angústia debilitante, devemos olhar para além das influências externas, pois as pessoas podem sentir extremo descontentamento mesmo quando suas circunstâncias de vida e saúde física são excelentes.

Fisiologicamente, é importante distinguir entre os sintomas específicos da dor física e suas causas subjacentes, ou seja, doenças e lesões. O mesmo se aplica no âmbito psicológico: formas de sofrimento mental como desorientação, baixa autoestima, frustração, agitação, inquietação, insônia, tédio, ansiedade, instabilidade emocional, paranoia, fobias, estresse pós-traumático, depressão e apatia são todos sintomas de desequilíbrios mentais. No entanto, para curá-los, é preciso examinar suas causas subjacentes, que não se encontram externamente em nossos ambientes físicos, relações sociais ou cérebros. Essas condições externas podem contribuir para o sofrimento mental, mas as principais causas de nosso descontentamento encontram-se internamente nos processos mentais que perturbam o equilíbrio da mente.

Utilizando termos psicológicos ocidentais, podemos classificar as aflições mentais como sendo de quatro tipos: cognitivas, conativas, atencionais e emocionais. O budismo atribui a raiz de todos os kleshas à ignorância e à delusão, especificamente à ignorância e à delusão com relação à natureza de nossa própria identidade e com relação às verdadeiras causas do sofrimento mental e do bem-estar genuíno. Embora cada um de nós exista em interdependência com todos os outros seres e com nosso ambiente físico, não temos consciência, ou somos fundamentalmente ignorantes, quanto ao significado e a todas as implicações dessa interdependência. Assim, nós realmente acreditamos em nossa visão ignorante e sustentamos a visão delusória de que somos autônomos e existimos de alguma forma que é independente de todos e de tudo ao nosso redor. Da mesma forma, embora as verdadeiras causas de nosso descontentamento e do bem-estar genuíno estejam dentro de nossa própria mente, por delusão, nós as atribuímos a influências externas em nosso corpo, relações sociais e ambiente físico. Essas formas de ignorância e delusão são aflições cognitivas e são a raiz de todos os outros tipos de aflições mentais.

Sob a influência de nossas aflições mentais, mesmo quando buscamos nos livrar do sofrimento, somos movidos por desejos dirigidos ao mundo externo para escapar do que erroneamente consideramos as causas fundamentais da infelicidade em nossos corpos, relações sociais e ambiente. Da mesma forma, em nossa busca pela felicidade, procuramos modificar nosso corpo, relações sociais e ambiente para que nos proporcionem prazer ou conforto, mas essa felicidade – caso seja obtida – sempre acaba sendo passageira e, portanto, insatisfatória. Todos esses desejos e intenções, oriundos da ignorância e da delusão, são formas de aflições conativas, nos levam fazer escolhas insensatas, que acabam sendo causas de nossa própria infelicidade e da infelicidade dos outros. Pensamos erroneamente que o comportamento motivado por essas aflições conativas nos levará à felicidade, enquanto nos afastamos das verdadeiras causas do bem-estar genuíno como se elas não tivessem valor.

Como resultado das aflições cognitivas e conativas, enquanto nossas mentes estiverem sob a influência dessa busca incessante e externa pela liberação do sofrimento e da experiência dos prazeres mundanos, nossa atenção está destinada a ser cronicamente perturbada pela agitação e distração, ou hiperatividade atencional. Isso leva ao estresse e à exaustão crônicos, que, por sua vez, resultam em lassidão e embotamento mental, ou déficit de atenção. Essas são formas de aflições atencionais.

Enquanto estivermos dominados por toda a gama de aflições mentais cognitivas, conativas e atencionais, o sofrimento emocional será inevitável. A depressão, a ansiedade e o estresse são inevitáveis e, embora possam ser vistos como emoções perturbadoras, de acordo com a psicologia budista, eles não são considerados kleshas, mas formas de duhkha, que não necessariamente prejudicam nossa saúde mental ou nosso equilíbrio em sua base. Essas emoções perturbadoras são o resultado de aflições mentais, mas não são as causas aflitivas em si.

Ademais, assim como a experiência da dor física pode nos alertar para a necessidade de buscar uma cura para a doença ou lesão que a causa, em vez de recorrer apenas a analgésicos, a experiência desses tipos de sofrimento mental também pode nos motivar a buscar e curar suas causas internas em nossa própria mente, em vez de suprimir esses sintomas com drogas, prazeres sensoriais e outras distrações. Para aplicar corretamente a palavra “emoção” em seu uso contemporâneo à psicologia budista, as aflições emocionais que são, na verdade, kleshas são aqueles processos mentais que perturbam a mente fazendo com que ela (1) reaja ou se envolva emocionalmente de forma exagerada, (2) se torne emocionalmente distante ou indiferente, ou então (3) reaja emocionalmente de forma tóxica, inadequada ou irracional a uma determinada situação. Alguns exemplos são o ódio, a raiva, o ressentimento, o desprezo, o ciúme, a crueldade e a satisfação com o infortúnio alheio.

O primeiro passo para superar o sofrimento mental e o descontentamento é identificar suas verdadeiras causas. O segundo passo é aplicar remédios eficazes, primeiro para atenuar e, por fim, para eliminar completamente as aflições mentais; e uma vez que essas causas primárias são internas, seus remédios também devem ser encontrados internamente, curando a mente por meio do cultivo das inteligências cognitiva, conativa, atencional e emocional. Todas essas são desenvolvidas por meio da prática do que os budistas chamam de bhavana (pali/sânscrito), que significa literalmente “desenvolver”, “cultivar” ou “produzir”, no sentido de “trazer à existência” qualidades mentais que neutralizam as aflições mentais e nutrem processos mentais saudáveis que resultam em bem-estar genuíno. Esse é o verdadeiro significado do termo “meditação” tal como é compreendido no budismo.

Quando equivocadamente reduzimos toda a gama de kleshas a “emoções perturbadoras”, em muitos casos estamos confundindo sintomas emocionais resultantes de aflições mentais com suas verdadeiras causas, que estão nas próprias aflições mentais. Começamos a chegar à raiz de nosso descontentamento somente quando vemos as aflições cognitivas e conativas pelo que elas são – sempre implicando uma ignorância com relação à realidade e, então, confundindo o que não está presente com o que está presente. Essa é a sequência perene da ignorância: simplesmente não conhecer a natureza da realidade – dando origem à delusão – e depois criar nossas próprias ficções e considerá-las reais. As aflições atencionais, que são tão prevalentes no mundo moderno, com todo o seu estresse e agitação, invariavelmente se originam de aflições cognitivas e conativas e, na dependência dessas três, as emoções resultantes desreguladas, perturbadoras e muitas vezes não reconhecidas (algumas das quais não são realmente kleshas) certamente dominarão nossas vidas. Para encontrar a paz interior e o equilíbrio emocional que todos nós buscamos, precisamos olhar para dentro, para as causas fundamentais do sofrimento mental, e cortá-las pela raiz.

Ex-monge ordenado pelo Dalai Lama, B. Alan Wallace tem doutorado em estudos religiosos e escreve frequentemente sobre budismo e ciência. Ele é fundador e presidente do Santa Barbara Institute for the Interdisciplinary Study of Consciousness (Instituto Santa Barbara para o Estudo Interdisciplinar da Consciência).

Originalmente publicado por Lion’s Roar:
https://www.lionsroar.com/severing-the-roots-of-our-discontent-the-buddhist-way/

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